TRAVELLING DE DANEY

AMOR SEM ESCALAS, Jason Reitman

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AMOR SEM ESCALAS, Jason Reitman



Para me conhecer, você deve voar comigo.

Um casal desavisado pode se surpreender ao assistir "Amor sem Escalas". Isso acontece, pois o filme não é simplesmente uma comédia romântica, como o título recebido no Brasil sugere. Como um aviso sutil para os norte americanos - e não norte americanos também -, o longa disserta sobre a situação econômica dos Estados Unidos e como algo tão simples é fundamental para que as pessoas consigam suportar as perdas: A família. Seguindo essa linha, Reitman consegue prender o espectador com um roteiro agradável, que mesmo não sendo espetacular como o seu "Obrigado por Fumar", é uma boa pedida para quem quer assistir um bom filme.

Ryan Bingham, interpretado pelo ótimo George Clooney, trabalha para uma empresa na função de demitir funcionários de forma educada. Bingham busca um discurso motivacional e segue uma série de regras de conduta para que os empregados demitidos reagem o melhor possível ao impacto da notícia. No entanto, sua função exige viagens aéreas constantes a inúmeros pontos dos EUA, impedindo que ele tenha uma vida "normal". Como o próprio personagem diz: "Para me conhecer, você deve voar comigo". Apesar de não ter contado com a família ou ter um relacionamento sólido, Bingham parece gostar de seu way of life, tendo como objetivo principal, alcançar 10 milhões de milhas aéreas, marca que apenas seis pessoas conseguiram na história até o momento.

As coisas começam a mudar quando Natalie (Anna Kendrick) uma jovem contratada pela empresa, propões que as viagens constantes sejam substituídas por videoconferências. Bingham procura convencê-la da importância da demissão ao vivo, trazendo-a para o seu cotidiano: Viajar e demitir. Além disso, Bingham começa a se envolver com Alex (Vera Farmiga), uma mulher com estilo de vida semelhante a dele. É a partir desse gancho que Reitman começa a construir todo o conflito do personagem principal. Bingham começa a questionar a idéia de ser um "lobo solitário" e passa a considerar a hipótese de ficar mais em casa e ter um relacionamento real com Alex.

O filme começa a ser conduzido pelas cenas de demissão. É a partir desse momento que Reitman disseca uma potência mundial fragilizada. Observa-se a grave situação nos planos em que Bingham e Natalie chegam a uma empresa em Kansas e encontram um escritório entregue as moscas, e na empresa de Detroit, onde havia uma lista gigantesca com nomes de funcionários a serem demitidos. Além desse aspecto, o diretor consegue fazer uma ponte reflexiva com a situação das pessoas que perderam seu emprego. Todas elas recebem a notícia de Bingham, que é contratado para estabilizar emocionalmente os empregados. Entretando, não é graças ao talento do personagem que elas conseguem sobreviver ao choque da demissão. Reitman deixa bem claro que elas possuem algo que Bingham não possui: Uma família. É apenas isso que os mantem de pé. E é exatamente essa tirada o ponto forte do filme.

Reitman não decepciona com um final clichê. Por mais que chegamos a acreditar que Bingham mudará sua vida, começando a ter uma relação real com uma companheira e sua família, algo inesperado acontece. Assim, ele evidencia o quanto é difícil para Bingham conseguir agora sua redenção, a partir do momento que o mesmo negligenciou durante toda a sua vida qualquer ligação afetiva. Para ele só resta o objetivo das 10 milhões de milhas aéreas conquistadas e sua vida dentro de uma avião. Para nós, resta um delicioso e indispensável filme.


Eduardo Albuquerque, 30 de janeiro de 2009.

Amor sem Escalas (Up in the Air)
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Anna Kendrick, Danny McBride
Direção: Jason Reitman
Gênero: Comédia
Duração: 104 min.
Distribuidora: Paramount Picture

Classificação do Crítica com Pipoca:

SÓ MINHA HORA DEUS SABE, Emanuel Aragão

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SÓ MINHA HORA DEUS SABE, Emanuel Aragão


Obras assim são raras

É fácil se identificar com filmes que tratam de assuntos sensíveis. Assuntos esses tão sensíveis que os filmes são obrigados a se arriscar, beirando o mau gosto. Poucas obras conseguem tratar esses assuntos com a delicadeza necessária. Só Minha Hora Deus sabe, de Emanuel Aragão, é um exemplo desses filmes. Um belo e raro exemplo, que ao longo dos seus quinze minutos, consegue mexer com os sentimentos das pessoas na medida certa.

O curta é um registro de uma família de carroceiros, que vive a base da coleta de lixo para ser reciclado. O local onde habitam é de pobreza extrema e de condições de higiene muito abaixo das mínimas que um ser humano tem direito. E é dessa forma, cercado de lixo, que essa família sobrevive, sendo apresentada ao espectador pela lente da câmera. Mas o filme vai muito além do que apenas gravar o cotidiano dessas pessoas. O material coletado consegue trazer, em seu âmago, inúmeras reflexões. No plano em que a avó, ao ser entrevistada, dizendo não querer morrer, pois precisa de mais tempo para “cuidar dos seus cabloquinhos”, ou no outro plano, em que as duas crianças mais jovens brincam inocentemente de cavalinho, no meio do lixo, evidencia-se uma série de questões. Tanto a fala da avó, que deposita, aparentemente, toda a fé de que seus “cabloquinhos” possam ter um futuro diferente, como as crianças, que observam aquela triste realidade com outros olhos, esses inocentes e esperançosos, nos produzem uma sensação de alegria e esperança. No entanto, ao mesmo tempo, esses planos são capazes de funcionar como um grito de alerta, mostrando a dura vida daquelas pessoas e de seus filhos, fadados a viver em condições semelhantes, fechando um triste ciclo sem fim de desigualdade social. Indispensáveis ao curta, essas duas passagens são capazes de proporcionar uma autocrítica da própria imagem, que conseguem sobreviver por si só.

Esses elementos são os pilares do curta. Soma-se isso a adição da música “O Cravo e a Rosa”, enquanto as crianças brincam, dramatizando ainda mais o plano, como as palavras finais, que explicam que a família vive entre o Palácio do Planalto e a Praça dos Três Poderes, em Brasília, fortalecendo a idéia de que a realidade em que a família vive é distante da nossa realidade economicamente, mas não fisicamente, nos leva a ter certeza de que esse filme, que é considerado um curta, devido a seu tempo de duração, na verdade é um longa, graças a sua grande expectativa de vida. E que seja visto por muitas outras pessoas, pois obras assim, repito, que conseguem tratar de assuntos delicados na medida certa, são raras.

Eduardo Albuquerque, 3 de novembro de 2009.

Fica Técnica:

Só Minha Hora Deus Sabe
Gênero Documentário
Diretor Emanuel Aragão
Ano 2009
Duração 15 min
Cor Colorido
País Brasil

Classificação do Crítica com Pipoca:




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